Frequentemente encontra na internet aquele pessoal que diz entender de música, descrevendo cada estilo dentro de uns conjuntos quaisquer de técnicas e formas os mais mirabolantes estilos de música que gosta, normalmente mais o público do metal. Logo, você caso achar Black Metal tradicional parecedíssimo com Crust Punk vai ser taxado de burro e vão fazer uma longa dissertação do que, pelas suas aulas de guitarra, ambos são diferentes: Citação riffs, acordes, “notas de metal” e toda viagem para convencer (ou ridicularizar) você e apontar o oposto. O mesmo vale para música gótica.
Nesse texto vou procurar desmentir o mito do rótulo atrelado à técnica e definir música gótica. Espero que ao final desse post eu tenha tornado claro o que é música gótica, entretanto não será a unica postagem que farei sobre o assunto, dificilmente se encerra isso numa unica postagem e eu tenho muito a que comentar sobre isso no futuro. Acredito que tenho algumas brechas para pesquisar sobre Industrial, porém pouco tem haver com o tema inicial e pode ser melhor trabalhado deste do início.
Música gótica como música popular.
Antes de explicar o que é música gótica, é preciso conhecer o que é música popular e música erudita, conhecendo essa diferença é possivel desmascarar algumas viagens. Música clássica tem como principais caracteristica ser escrita, estudada e criada através desse processo, gerando sua complexidade. Há muito mais modulações, frases musicais mais diversas e tempo de duração do que na sua contraparte, a música popular. Existe técnicas e sua classificação se dá pelo uso diferente de técnicas que a música erudita desenvolve.
Já a música popular, sendo curto, grosso e estúpido, é tudo que não é música erudita ou clássica. Existem várias definições que se seguem do que é música popular, entretanto eu irei usar uma delas que além de traduzir o meu raciocínio, vai diferir da música foclórica e parcialmente da eletrônica, assim como movimentos na música mais undergrounds: A música popular é a música feita exclusivamente para entretenimento, comercializada para massas ou grupo de pessoas pela mídia e traduzem com suas letras e perfomance parte do comportamento, cultura e valores dessa massa ou grupo de pessoas. Outro fator importante é que a música popular não está preocupada com a técnica que usa, e sim em estimular pela música sentimentos comuns da massa ou desse grupo de pessoas, ou seja, ela pode querer em épocas diferentes transmitir as mesmas coisas usando sonoridades completamentes diferentes! Basta comparar o Screamo com bandas de hardcore antigas: Enquanto uma fala do namoradinho que o pai mandou pra fora de casa a outra falava de política, sendo que ambas tem sonoridades semelhantes, ao passo que muito emocore não é diferente de música sertaneja.
Traduzindo isso para nosso mundo darque, tudo que é música gótica, sem exceção, é música popular. Suas bandas quando surgem para serem divulgadas para a massas e caem no gosto de nós tem três opções: Ou nos ignoram, podendo ter liberdade para conquistar mais outros públicos (ou não) com suas próximas produções; ou “vestem a camisa” e começam a comercializar suas músicas para nós, sendo comercializada por nós; ou nos escrotizam para não serem associadas a “banda que góticos também escutam” por motivos infinitos. Dead Can Dance, por mais que use canto erudito, é Darkwave/Etheral e uma música popular (partindo do pressuposto do não-clássico), Poeise Noise, Crux Shadows e o que mais você imaginar que use instrumentos associadas a música erudita não tocam música erudita, tocam no máximo algo com influências da folk music. Mesmo músicas com formação elevada podem tocar música popular e mesmo que use dela para aprimorar seu repertório, ainda vão compor música popular já que essa não pode ser estudada com a mesma profundidade , que é o caso por exemplo do Opera Multi Steel.
Para ficar mais prático para entender, vou tentar traçar um paralelo: A música erudita está para a poesia e literatura épica, o Machado de Assis e Cervantes, da mesma forma que a música popular está para a poesia lúdica, a literatura “Crespuculo” e “Harry Potter”. Há também críticas a isso, já que o Jazz, Frevo e a música minimalista exigem um conhecimento muito grande a respeito da estrutura da música para serem produzidas, porém isso é outro assunto que eu não pretendo abordar aqui.
Um pouco que notas do punk… uns riffs de metal… uns acordes de blues…
Porém ocorre muito de pessoas ditas “entendidas” em música dizem que existem “diferenças” técnicas entre os rótulos: Heavy Metal Tradicional é diferente do Progressive Rock, que é diferente do Oi!, que é diferente do emocore, que é diferente do goth rock que é diferente… E após isso aparece aquele babaquismo sobre técnica e frivulas dos artistas, que é conhecido por nós como “O black metal tem uma afinação mais rude somado com um gutural mais grave nas notas XPTO09 com guitarras agressivas e acordes…” e similares escrotos. Nada tão longe da verdade: Qualquer análise musical decente anula a tentativa desses supostos conhecedores sem formação fazerem ciência da música na base do palpite, já que a música popular é mutante: O que hoje nós chamamos de Heavy Metal Tradicional será um outro estilo amanhã, e o que chamamos hoje de Doom Metal será outro estilo depois de amanhã. Estilos antigos, como os infinitos sub-rótulos do Blues, hoje são tocados como pop-rock sem qualquer problema, assim como da MPB e da bossa nova. Exemplo melhor temos com o Paradise Lost, que antes era Doom Metal, virou Death Doom Metal e agora Gothic Metal – isso se tratando de um único cd, o Gothic, ou então indo para o próprio Dead Can Dance que hoje é tratado como Darkwave/Etheral, porém já fora chamado de Neofolk, New Age, música gregoriana ou o que você, “esquisotérico” randômico, quiser. Tudo isso constituí num erro lógico, ou seja, um farsa justificativa para poder associar seu estilo como “verdadeiro” usando uma retórica para aproximar o rótulo a música erudita por causa da vendida visão que a música clássica é de qualidade superior, pela autoridade da formação de músicos acadêmicos e a sensação pejorativa da palavra “popular”.
Finalmente a definição que você sempre procurou na internet
Mas após tudo isso, o que é música gótica então? Vamos deixar de associar música gótica a um conjunto de técnicas que a produz e falaremos agora do que ela realmente é: Uma expressão de um grupo social feita para esse grupo social. Música gótica é, simplesmente, música produzida por ou para góticos, que com sua sonoridade e letras identificassem com os valores de nosso grupo. Sim, o termo é abragente – e ele foi feito para ser amplo mesmo! Nessa definição você pode pegar algumas todas as bandas dos estilos goth rock, death rock, darkwave, post punk, etheral, neofolk e outros. Por dedução, toda banda que faz música gótica é uma banda gótica. Porém reforço em lembrar que música gótica é um conjunto que contém bandas, não rótulos. Isso significa, exemplificando, que nem toda banda de Post-Punk será uma banda gótica e nem para sempre toda banda de Goth Rock será uma banda gótica.
Parece ser tão simples que chega a ser ofensivo, porém o único complicador: A música gótica, por ser música popular, vai ser diferente entre si ao longo do tempo (!). Isso significa que bandas atuais que lembram bandas dos anos 80 que eram consideradas góticas hoje não são consideradas por não estarem alinhados com valores dos góticos atuais. Há puritanos que torcem o nariz para isso e não entendem como bandas do dito “dark indie” não serem “agitadas” em baladas góticas sendo que são copias quase assumidas do antigo post-punk, enquanto temos umas coisas doidas como Last Dance e Nox Interna que são muito diferentes do Bauhaus e Siouxsies and The Banshees. Tem que se ter isso em mente para não cometer um erro comum, embora justificavel: Falar que bandas anteriores ao gótico ou então bandas que nunca foram mencionadas como góticas como bandas góticas. É aquele povo que sempre arruma uma banda obscura, fala que “tem e influênciou bandas que foram muito importantes para a música gótica” e joga aquilo como gótico – lógico que os próprios góticos e membros das bandas nunca ouviram falar desse grupo ou até mesmo desgostam da música. Outro erro que ocorre é quando uma banda passa a tocar para góticos, se tornando uma banda gótica, e anteriomente tocando para outro público e logo prejulgarem que a banda sempre tocou para góticos – ou seja, sempre foi música gótica. Obvio que não! Os artistas evoluem tanto nas suas obras quanto nos seus valores, o que permite a possibilidade deles se alinharem com nossos valores em comuns ao longo do tempo. Um exemplo clássico é o Lacrimosa que mesmo tocando para os góticos ocasionalmente (e sendo, nessas ocasiões, uma banda gótica) não é uma banda gótica, suas músicas de 20 minutos de duração não são músicas góticas – exceto se o DJ que colocar elas na pista for muito bom. Assim como há bandas que deixam de tocar para o público gótico e deixam de ser bandas góticas, saindo do gosto do mesmo como é o 1919 e o Sister of Mercy atual. Note que quando eu falo nessa inclusão-exclusão de bandas, eu me refiro aos cds, é fato que em um momento das suas discografias essas bandas cairam no gosto de um grupo chamado gótico e serão, por isso, sempre bandas góticas no nosso imaginário, entretanto não podemos dizer que sempre tocaram músicas góticas – e sempre foram bandas góticas.
Hey rapaz, tire essa máscara de gripe suína da cara!
O que normalmente algumas pessoas ficam feliz (ou não) quando chegam nesse raciocínio é que EBM, Industrial e todas suas invenções e derivações próprias também faz parte do gótico, ou seja, realmente tem coerência aquele povo dançando na baladinha aqueles putz-putz insuportavel e achando que tá abafando, assim como o mesmo público na Europa. Não e a razão é simples para quem tem bases sobre a história da música industrial: Essa música foi feita para expressar valores e conceitos distintos do gótico, como o militarismo, a crítica ao modo de vida “industrial” humano, a liberdade para criar sem prender-se a instrumentos e estruturas musicais comuns entre outras razões. O EBM deriva do industrial com sua mistura com o dance music, veja que os mesmos elementos de várias bandas de Industrial também existe nas bandas de EBM além da estética de ambos serem parecidas.
Isso também serve para alguns estilos de música que há temáticas que se separaram do gótico e que mesmo assim tocam junto. Muitas, provavelmente a soma maioria de bandas de neofolk não podem ser música gótica pela mesma razão citada acima: Outra temática, outra estética. Isso não signifique que todas as bandas não poderão ser chamadas como música gótica: Há bandas de EBM que tocarão música gótica assim como tocam música industrial, esses rótulos não são excludentes e podem aparecer juntos, são bandas que atingem ambos os públicos. Neofolk idem, heavy metal idem e assim por diante.
Rir, porque já choramos demais.
Para concluir meu texto, dedico ele a todas as pessoas que, sem conhecer pitacas sobre música senão for fazer escalas em guitarra ou que produzem conhecimento na base do “ouvir dizer” e tendo como unica e grande bibliografia o dicionário Aurélio, tentam falar de música. Alias, não só de música como qualquer área ligada ao saber, porém não tenho mais pena para essas pessoas, são sem querer mais produtos da própria indústria que os criaram.

cade as musicas ?
Bem explicativo… Mas e as músicas, cadê? ahuahuahauhauahauh
Gostei do comentário (apesar de creditar mesmo que Lacrimosa seja uma banda de música gótica)
Nesse sentido se fazia interessante o verbo “to be”, em inglês. Uma banda pode “ser” gótica ou “estar” gótica ao mesmo tempo ou independentemente em momentos diferentes.
hahaha…é muito grande o texto…Não li
Mas passei por aqui… :) Rimei.
Tchau