Vedetistas produtivos do rolê

Publicado: 17/04/2010 em Crítica, Personalidades góticas

"Oi, vamo no Dark's Macabres Essences 3?"

Quando se pensa nos problemas da cena gótica atual (e nem tão atual assim), logo se imagina que a culpa é do próprio público. Argumentam, resumidamente, que a culpa é a da cultura ou da falta dela. Alguns dizem que a dificuldade em conseguir material de qualidade acostuma mal o público. Outros tantos afirmam que, na realidade, era assim antes, mas agora estamos caminhando para uma melhora, graças a alguns membros da cena que investem nela - nem sempre esperando retorno. Eu vou escrever aqui sobre aqueles que produzem, aqueles que chamamos pelo apelido de “membros produtivos do rolê”.

Vede-o-quê?

Pista de dança gótica: As nossas são igualzinhas, só que menorzinhas

Vedetismo é um lugar alto que se coloca os sentinelas, ou vedeta é o artista que tem os melhores papéis do cinema, teatro ou televisão. Eu não vou apontar que esse é o problema, assim como o amadorismo, de todo o público. Porém, ele é o maior defeito de um tipo especial de gótico que só existe aqui e bate no peito para lembrar todos de sua condição: “O membro produtivo de rolê”.

Não faz tempo, até ano passado era bonito se dizer que “apoiava a cena nacional”, que “investiam na cena” e que “valoriza as bandas nacionais” e todo tipo de coisa que envolvesse as palavras “cena” ou “nacional” (é fácil! “Eu valorizo as mulheres da cena nacional, Eu respeito os promotores da cena, eu vou assistir shows de bandas nacionais”). Isso vinha sempre acompanhado do argumento que diz que a cena tinha como o problema a falta de produção e que, por conta disso, era muito presa ao passado ou ao Gothic Metal. De fato, embora eles existiam na suas funções anteriormente, apenas depois do booom de 2004 que começaram a falar isso abertamente.

Na prática, a grande maioria continuava valorizando qualquer banda por ser nacional (só no papo, mas o cache raramente passava de R$50 de muitas), usava isso para exigir respeito pela promoção da cena, fazer um evento que tinha uma proposta até diferenciada e era igual ao todos os outros e era uma ótima cantada para pegar mulher, só perdendo para ter uma banda. Tivemos eventos que realmente se destacaram dos mais comuns, como os primeiros Vísceras, o POST, o antigo Theatro dos Vampiros (hoje, chamado Projeto Absinthe que, dois anos antes de mudar de nome já vinha gradualmente se aproximando da proposta do extinto Gotham City, ficando muito similar a este) e vários outros que minha memória abandonou no momento. Por outro lado, outros projetos infelizmente pecavam pelo amadorismo e, cedo ou tarde, repetiam as mesmas formulas de “sucesso” para sobreviver: bastante EBM (que chamavam de Power Noise, Dark Noise, DarkElectro, Industrial, mas era tudo EBM), anos 80 (para agradar alguns xaropes) e, de vez em quando, alguma coisa diferente (para trazer uns perdidos pra pista).

Aparentemente, tanto o leitor nesse momento quanto eles acreditavam naquilo que falei na introdução desse texto: O problema é o público. De fato, se o público continua indo em evento lixo mesmo com eventos bons ao lado, deve ser porque é fácil agradar gótico. Primeiro, as próprias Vedetas da cena usavam seu carisma para trazer pessoas para eventos que nunca receberiam público de outra forma. O argumento de “apoiem a cena nacional!” (como se fosse possível apoiar a cena internacional…) caía como uma luva neste processo. Principalmente quando um lugar abre, contrariando a lógica do mercado ele começa recebendo muita gente e vai ficando cada vez mais vazio, até fechar, mudar de nome, de lugar ou tiver uma nova vibe para sobreviver. Muitos eventos precários em qualidade na discotecagem, como foram os vários que as promotoras de eventos de Gothic Metal fizeram, se aproveitaram desse modismo e agora exploram o modismo do Crepúsculo. Os membros-produtivos-da-cena não fazem isso por malicia, mas por individualismo: Querem vender eventos de amigos ou próprios. O público acaba não gostando do evento em si, mas do sujeito que indicou (e como brasileiro tem memória curta, basta o sujeito usar a tática dos políticos de continuar prometendo que todo mundo vai de novo).

Membro produtivo da cena virtual

"O que você faz pela cena gótica nacional?"

O orkut é a rede social que, definitivamente, os góticos mais utilizam para se encontrarem. A grande maioria foi criada pelo Juliano (dono da Gothic Rock – Rock Gótico, sua maior comunidade) e pelo Henrique Kipper, porém tem muitas populares, como a excêntrica Góticos do Brasil e o Gothic Metal (as de Death Rock não conseguem ser populares porque seus membros ficam com sindrome de undergroundismo). Esses fóruns do Orkut cumprem sua função de comunicação melhor que muitos outros fóruns em outras plataformas, entretanto, nem sempre é assim.

Rotineiramente, salvo os casos de excentricidade estatística, temos comunidades que durante muito tempo evitaram tocar nos taboos da cena, seguindo uma estrutura que alguns chamavam de cartilha. Outras, mantinham uma moderação arisca a qualquer tipo de troll¹, porém muitos desses trolls também eram pessoas ativas na cena virtual (olha a decadência) e muita gente não posta em comunidade quando muitos deles estão juntos, porém elas próprias não tem o hábito de postar muito. O resultado disso eram comunidades muito boas, mas com muitos tópicos antigos ou que acabavam se tornando velhos com facilidade, devido a pouca produção e poucos debates. Noutras, a pessoa escrevia apenas uma vez para nunca mais voltar. Algumas comunidades são góticas apenas no nome, já que concentram a maior quantidade de anti-góticos e gente que tá cagando pra cena gótica, apenas se mantém como “troll do bem” e choram quando começam, seja por brincadeiras ou tirações de sarro, a mudar o status quo.

Porém, o pior tipo é definitivamente aquele que, felizmente, está em extinção: Batia no peito por ter criado um site gótico de sucesso. Antes do orkut, tinhamos vários fóruns de góticos (principalmente com a moda do Gothic Metal, proliferaram fóruns de trevosos). Neles se comentava de tudo, mas muitos careciam de uma parte de Góticos ativa – já que a maioria nem sabia direito sobre a cena, ficava comentando sobre goticismo e procurando informação sobre os anos 80. O Carcasse tinha discussões fortes, sendo que muita gente que hoje bate no peito dizendo valorizar a cena nacional, naquele tempo, eram os que mais diziam que a cena iria acabar. O forum do Madame Satã, se ainda existe, era apenas algo 4fun, porém era um público fechado que se conhecia há muito tempo, então parecia muito aqueles papos de tiozão lembrando as besteiras da juventude. Esses dois, até onde sei, não tiveram o problema do cara que se crescia afirmando que era dono de algo, porém, muitos sites de trevosos, por alguém ter pago por eles ou ter conhecimento para fazê-los, eram usados da mesma forma que os vedetas-físicos usam o resto da cena.

Outras características do Membro Produtivo do rolê

Para quem frequenta outros blogs góticos pela Efigênia, deve conhecer o último que acabei tendo problemas. Bem, aquilo é um exemplo típico de Vedeta: Um sujeito que sempre exalta a cena nacional (desconhecendo todas as cenas de países vizinhos ou mesmo as maiores, como americana, alemã e britânica), valoriza todas as bandas nacionais não importando a qualidade dela, sempre conta aquela história típica de bandido favelado para defender seus crimes, porém aplicada a cena gótica (“a cena nacional passa por muitas dificuldades, mas não desistimos e com muito esforço estamos conquistando avanços”), é puxa-saco de vários promotores, membros antigos ou alguns que colocaram no nick do msn “DJ” antes ao nome, odeia violência mas adoraria que a tosquisse que era antigamente voltasse contra fulano em específico.

A maioria usa a falácia de autoridade para qualquer crítica que recebe. Claro, eu também acho que crítica construtiva não existe (e nem destrutiva), porém eles não se dão ao trabalho de ouvir o que os outros tem a dizer e surtam, apelando em ultimo recurso para “o evento/balada/banda é minha, eu faço o que quiser”. Costumam produzir muitas baladas de 3 edições, ou então, em cidades do interior, uma única casa que toca o que o público quiser (e se acham os reis do marketing de relacionamento e fidelização de cliente), deste que ele tenha disponível. Invocam, além de seu portfólio, os anos de cena, os lugares que participaram e quantos shows do Sister of Mercy e de bandas nacionais foram. Tudo isso, na minha cabeça com algum, soa apenas como exatamente o que significa vedetismo: Exibicionismo.

Mais qual realmente é o problema disso?

Ok Ok, ele também disse que escavar buracos gera renda e que isso gera oportunidades, empregos, que gera mais renda...

Dizia um economista (que era matemático) que se credita a responsabilidade dos EUA ter saído da crise de 1929 essa sentença: Macroeconomicamente, produção não implica consumo. Traduzindo e largando o economiquês, quer dizer que não adianta fazermos ao longo do país trocentos caralhões de eventos se não tem gente que os consuma. Isso não significa frequentadores, significa gente que chega no evento de visu ou a menos consegue palpitar com coerência das roupas dos outros, gente que consegue dançar não só o EBM e os 80′s, mas toooodooos os estilos e que, no final, é mais ou menos antenado com os lançamentos da cena e nas suas pistas tocam mais ou menos o mesmo setlist que acontece lá fora. Promotores e vedetas são fenômenos naturais, a burrice não. Não adianta apresentar uma nova temática sem apresentar essa ao público antes. Ninguém, que escuta post-punk, vai gostar de Goth Rock 10′s de bate-pronto, já que a música gótica em geral vai mudando. Fizeram isso, sem querer, com Cruxshadows e BlutEngel (mas apresentaram como EBM), como já disse, e o eventos Death Rock fez muito isso com Goth Rock principalmente quando achavam que era Death Rock (agora, eles não querem comentar sobre isso). Só o fato de indicar ao público já atinça sua curiosidade, chamar uma banda grande e outra nem tão famosa junto para abrir já demonstra vivacidade, já faz os góticos consumirem, já faz ficar viável trazer mais bandas de fora e, segredinho não tão secreto de marketing, aumentam o potencial de mercado. Ou seja, passa a ter mais góticos na cena, permitindo novos eventos lucrem mais e aumentando a concorrência no setor!

Os Vedetas fazem o contrário, eles abrem vários eventos com alguma coisa diferente e querem que o público os engula. Como o público não gosta, deixam a casa e acabam nunca produzindo nada duradouro, o que ficam mesmo é a mesma repetição e falta de criatividade. Não é fácil, mas com estratégia e esforço dá para conseguir. A cena nacional, nos anus anos 80, começou assim.

O próximo texto, sem enrolação, irei falar do público e de algo que muita gente não se tocou ainda, nos nosso 20 anos de cena gótica.

1 – Trolls: Aqueles elementos que aparecem em blogs, foruns, twitter e qualquer rede social com o único interesse de gerar atrito, brigas, difamações e calúnias contra uma ou mais pessoas específicas. Normalmente, usam fakes e não há nenhuma razão manifestada para buscarem essa provocações senão a diversão que o Troll adquire.

Comentários
  1. Fabio SW Project disse:

    Fallen Archangel :
    A pergunta correta inominável ser é: Há uma cena gótica no Brasil? E eu vivo dizendo que não. E temos muitos exemplos de como isso acontece.
    O pessoal tende a ir num individualismo tosco que nao leva a nada.

    Ai esta o Grande X da questão.

    O que é melhor vc ter 30 casa noturnas com eventos michos numa noite, ou ter 4 ou 5 eventos mensais mesmo com um custo mais elevado, mas tambem tendo boa qualidade.

    Eu no meu caso prefiro que tenha ate so 01 evento mensal, mas que eu possa saber que seja la qual for o seu valor não me arrependerei de ter ido.

    Então esta na hora de querermos mais qualidade e menos quantidade!

  2. A pergunta correta inominável ser é: Há uma cena gótica no Brasil? E eu vivo dizendo que não. E temos muitos exemplos de como isso acontece.
    O pessoal tende a ir num individualismo tosco que nao leva a nada.

  3. O grande problema está nas “Vampire Party’s” da vida que infestam o Rio e São Paulo, assim como algumas outras grandes capitais. São festas de pseudogóticos fomentadas por “promotores” de baixo valor que querem apenas faturar em cima da inocência (ou seria melhor dizer imbecilidade, mesmo?) dos que começam agora a frequentar o que diz ser uma “cena”. Se isso é a “cena”, há uma falta de informação geral realmente, como você disse, Darcko, da parte dessa gente, do que se passa na Europa e nos Estados Unidos, onde o profissionalismo é de grande qualidade. Aqui, enquanto imperar o predomínio desses produtores “alternativos” (cujos nomes eu gostaria de saber para que, futuramente, não me envolva com nenhum deles em hipótese alguma, seja em qual parte do país for), ficaremos sempre em último lugar sabendo que um alemão QUE FREQUENTE EVENTOS SÉRIOS EM UMA CENA ALTAMENTE SÉRIA COMO A DA ALEMANHA pode estar a se perguntar neste exato momento: “HÁ UMA CENA GÓTICA SÉRIA NO BRASIL?”.

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