Uns dos primeiros frutos da minha crítica anterior a cena gótica já germinou num debate, que embora trate de um tema antigo, trás novas idéias e uma chama de ânimo para essa discussão. É colocado em tese o que deve ser respeitado em comum acordo entre os outros organizadores, para incentivar uma política de apoio e fomentação da cena gótica. Para entender melhor minha opinião, e não ficar boiando no assunto, peço para que você leia as 13 Diretrizes e dê uma passada na discussão no orkut.
Esse post trás alguns raciocínios que tenho sobre essas diretrizes e o que eu considero que deve ser uma união na cena, assim como parceria.
União na cena é algo utópico?
É utópico, no âmbito pessoal. Não somos amigos de todo mundo e mesmo entre irmandades religiosas, há os que gostam menos dos outros, o que dirá em algo tão mutável quanto interações de pessoas que tem o mesmo gosto musical e estético em comum – deverás sinistro e obsceno, adicionando-se. A cena sempre terá seus rachas, o universo gótico é amplo suficiente para adotar tipos diferentes de góticos e as pessoas podem vir a ser tornar um das mais diversas razões. Não temos um meme que faça sentirmos no outro algo em comum que transcende nossas relações sociais (e não, goticismo não existe, catzo!) e acredito que um trabalho de conscientização nesse sentido, seja visando a identificação do gótico enquanto consumidor ou pessoa, não vai fazer sucesso no sentido de melhorar essas relações.
Contudo, enquanto alguns eventos, funcionaria. Deste que isso fosse divulgado em várias formas de mídia e fosse levado seriamente, com sanções e benefícios incluso. Acredito que não adianta fazer esse acordo sem algum tipo de incentivo, algo que instigue eventos desse porte a buscar a mudança para algum padrão superior. Exemplos seria, no caso de eventos em várias cidades diferentes, dividir as despesas para trazer uma banda grande para realizar shows nos respectivos lugares, lista de cadastro com contatos de Djs (de verdade, de preferência que não sejam góticos para a qualidade não ser ruim) diversos, realizar grandes compras de bebidas e produtos diversos para conseguir maiores descontos e distribuir para esses lugares, fazer o mesmo em empresas de segurança etc etc. É o termo parceria sendo levado profissionalmente.
Existe alguns perigos, um exemplo é ver esse acordo como um “selo de qualidade”. O que ocorrerá vendo esse acordo como um “ISOTH1C000” não será apontar qualidade e sim servir como um diferencial para divulgação – de eventos ruins, inclusive. Não haverá fiscalização que funcionará senão o próprio voto anarcocapitalista: O público que ir ou não nesses lugares. O padrão de qualidade tem que subir sem mexer no preço, já que o público gótico é sensível a pequenas variações. Acima de tudo, vai exigir algo que não há na cena: Profissionalismo. Cumprir acordos. Denuncias. Tudo que pode fazer alguém ter que passar em cima de afeições, buscando não o desenvolvimento da cena gótica apenas, mas paralelamente o lucro. A qualidade tem que subir e isso ser uma razão para os góticos que antes frequentavam um local ruim deixar de fazer-lo. Isso já são desafios que quem tem evento faz toda a semana, quinzena ou mês, porém serão potencializados quando começarem a verificar que muitos deles fecharão se esse acordo for efetivado.
Outro ponto será o canibalismo dentre esses eventos: Não é possível sempre não coincidir datas e levando em conta que o melhor período é sempre a segunda semana de cada mês, não trazer uma atração ou promover o evento nesse dia pode ser fatal para as finanças desses lugares em prol do outro. Haverá discussões de quem ficará no lugar dessa vez e o público gótico não é amplo o suficiente para abastecer todos esses lugares, mesmo após esse contrato se efetivar. O mundo é darwinista, não marxista, logo uma possível união entre eventos fica comprometida ainda mais quando começarem a crescer.
Esses são pontos que, entre outros, serão discutidos com o tempo. Porém, foi levantado outro ponto interessante nessa conversa, ou ao menos um que eu tenho uma opinião um tanto firme ao respeito.
Conscientizar o público… mas de quê?
A cena caminha pelas próprias pernas, porém o público não gosta de se identificado como gótico. Sentem vergonha da infestação do metal que houve no começo dos anos 00′s e, devido a outros grupos também dentro do gótico que se excluíam com um discurso qualquer, teme ser perseguida. Um exemplo pessoal, que cabe bem nisso, foi as várias vezes que as pessoas me viam não como gótico, mas como deathrocker por andar com alguns deles e gostar do estilo. Ficam pasmo por eu dizer que sou gótico sem vergonha nenhuma e fugir de qualquer alcunha que inventam (como “gothrocker”, pula no barril viu…). Conscientização proposta pelas pessoas discutidas até agora é fazerem o gótico se identificarem como consumidores, o que não tem nada de errado nisso, mas sem trazer uma identificação anterior do que é gótico, eles não vão melhorar seu gosto.
“Mas já há essa identificação”, alguém pergunta. Sim, há, mas com um gótico idealizado, que supostamente existiu nos anos 80 e digivolveu, não se sabe como, para alguém que escuta EBM, death rock (que sempre apresentam, vale lembrar, como algo não-gótico) e anus anos 80. Falta apresentar e divulgar, por alguma forma, todos os outros elementos dentro da cultura gótica. Não que devemos parar de ouvir Joy Division e falar que Cinema Strange é uma droga, assim como falar que Skinny Puppy é algo não-gótico. Não. A cena gótica tem que se alimentar disso e de todo resto. Promover ações para o pessoal caprichar no visual, participar de Flash Mobs na cena, encontros de góticos, divulgar mais estilos musicais, reservar uma hora da balada para divulgar apenas os lançamentos do ano da balada, enfim, investir na cena sabendo que poderá não ter esse retorno. Esse é um trabalho melhor de conscientização porque faz o gótico conhecer que ele é mais que aquilo, amplia o potencial de mercado, faz o público crescer e consumir mais, dando possibilidade inclusive de criar mais eventos especializados.
Claro, não devemos esquecer que gótico é um bichinho meio masoquista, que confunde ser decadente com ser porco, e teremos que mostrar para o público que, assim como o playboy, ele pode exigir e conhecer seus direitos enquanto consumidor, mulher, cidadão e talvez até achar que ele pode se dá aos luxos de alguns playboys de exigir ainda mais qualidade. Esse tipo de coisa tem que ser apresentado, mas de uma maneira sutil, para não parecer artificial. Porém, isso virá assim que os próprios góticos começarem a não ter vergonha de serem góticos e se valorizar enquanto isso. Nessa hora, eles sentirão vergonha de quem falta com esses direitos básicos que nós já conhecemos, mas não praticamos.
Fim do Brainstorm
Claro que essa discussão pode ir longe e há muito que se discutir e superar. Dá-me certo orgulho por ter reacendido esse debate, mas se for tudo feito na base do camaradismo não vamos a lugar nenhum. Devemos ter a noção que somos consumidores e eles, prestadores de serviço. Não precisamos comprar algo que seja ruim e eles não podem agir de outra forma senão pelo profissional. É difícil para muitos de nós, seja qual lado estamos, mas acredito que com meia dúzia dá para conseguir um resultado eficiente suficiente para mudar um pouco nossa cena, visando melhorar a qualidade no longo prazo da mesma. Os que conseguirem fazer isso poderão até falhar ao final, mas serão sempre relembrados e inspirar novos que forem surgindo.
Devo escrever mais sobre isso no futuro, portanto não há nada definitivo nesse texto. Veremos o que se transformar esse embrião.



“Devemos ter a noção que somos consumidores e eles, prestadores de serviço. Não precisamos comprar algo que seja ruim e eles não podem agir de outra forma senão pelo profissional”.
A frase acima fo o que mais chamou minha atenção , porque sou totalmente a favor dela, faz um certo tempo que não frequento as baladas justamente porque a frase acima é o oposto do que aocntece…E sei que muita gente também acha isso, mesmo sendo muitas vezes uma balada barata, não pagamos por um lugar sem segurança, com bebida ruim e banda péssima!!
Já vi balada com Dj bêbado quebrando tudo…aff..Mais ainda, os cabos não ligarem por algum mótivo e na balada, não rolar mas som…onde já se viu isso???
Enfim por estas e outras que estou esperando algo bom, realmente de qualidade aparecer, mas só vejo casas fechando e fechando e nada de mudar…