Poesia hermética: A importância das letras góticas

Publicado: 08/05/2010 em Bandas, Música gótica

Isso é um rouxinol gótico do norte.

Esse texto agora falará de um assunto ignorado, indevidamente porém infelizmente por razões que muitas vezes foge de nossa culpa, por muitos góticos mais exaltados quando conveniente sem conseguir se sustentar, fugindo para o subjetivismo. O que me motivou a escrever esse texto foi um outro post do Musicground Podcast que ficou me martelando e me vez correr atrás de alguma coisa, era sobre Letras e se elas são importantes para música ser boa ou não.

A conclusão dada pelo autor foi de indiferença a letra, embora acredite que ele só tenha a visão do metal para falar (e apenas essa). Não culpo-o por isso, afinal, ele expôs a sua opinião e tentou argumentar, tentou criticar, e eu perdoo por ter tentado romper a barreira do “eu acho e pronto”. Embora tentou fugir do subjetivismo, ele caiu logo no final, acredito que por ter defendido um ponto de vista intrínseco sem ter buscado outros temas. Embora confesse que concordo em certos pontos com ele, tenho uma visão diferente e acrescentaria mais informação, até por conhecer um pouco o Heavy Metal e ser mais aberto a outros estilos, visto que a cena gótica absorveu muitos outros e deve-se a isso ao que chamo de “universo subcultural”. Porém, creio que é um ponto que poucos pararam pra pensar, então faço meu raciocínio baseado que você, leitor, gótico ou não, não soubesse de nada sobre a cena e a música.

Segue então, o porque a letra das músicas góticas são importantes.


A iniciação pela recitação

Góticos são a principio, uma estética antes de um tipo de música, ou melhor, uma subcultura. Embora dependentes e herdando vários pontos do mainstream, temos diferenças gritantes e somos unidos por um gosto estético em comum de coisas… err… chamaremos de “trevosas”, por enquanto. Ficará mais claro mais adiante. Pois bem, essa estética trevosa que nos unimos damos o nome de gótica, mas, apesar de parecer uma estética “obscura” ou “sombria”, é completamente diferente da estética do decadentismo. Doom Metal, filmes de terror “gore” ou do barroco. Nossa música acaba influenciada por essa estética específica e como o principal meio de manifestação dessa cena é a música, junto com a moda, temos da música a transmissão de valores que adotamos nos nossos goticismos (não a “filosofia”, que não existe, em si a “goticagem”).

A música gótica há muito antes de existir o gótico (embora os elementos que influenciariam os primeiros góticos) era uma música punk. Várias bandas anarco-punks seriam ditas como goth rock ou death rock se fossem hoje, se você pegar exemplos como The Mob, Elephant Talk, Spectres, Plastic Sugery e Dormannu. Sabemos que o Heavy Metal define seus estilos, além da própria letra, principalmente através da afinação de suas músicas (salvo o progressivo), a música eletrônica por beats e elementos durante sua programação (trechos de filmes, batidas programadas, presença ou não de composições recortadas etc etc) e que todas são músicas populares, ou seja, em última instância (sendo bem simplista, somando junto a essa definição as músicas folclóricas e música para massa) definidas olhando-se para o público que as consume e as reproduz. A música gótica, como já foi tratada nesse texto antigo, também funciona pela mesma regrinha.

Mesmo assim, isso tornaria a música gótica (e qualquer música) extremamente maleável, afinal, basta como algum wannabe qualquer chegar e passar a dizer que Lady Gaga é um novo Ikon da cena e teríamos que aceitar, seria algo completamente válido. Seria se ignorássemos que a música transmite uma estética específica, essa transmissão nada mais é que uma mensagem dita através da letra da música. Por isso que, lá fora, góticos não escutam Doom Metal ou a Bones do The Killers, mesmo falando de temas trevosos. Doom Metal trata de letras que fala de misantropia, escuridão por amargura, tristeza (mais próximo do ideal que estamos acostumados de trevoso, não é não?), a Bones do The Killers e letras darks de muitas bandas indies fala sobre escuridão no sentido do próprio artista, as bandas de EBM (e, lembrando, o Industrial que você escuta na balada gótica não é Industrial, é EBM) na cena gótica atualmente falam da mesma versão que vermos de escuridão, a mesma que algumas bandas de outros estilos fazem – que são abraçados pela cena gótica.  Ou seja, a música gótica (junto, sem esquecer, da moda) é nosso meio de transmissão de valores, que são criados e somados aos anteriores referente a uma estética específica, a estética trevosa. Não entrarei nesse momento para explicar quais são esses valores, num momento mais propício irei escrever sobre. Como não há ouvido do mundo que consiga dizer qual banda é gótica ou não é apenas pela melodia (não! Não há! O sujeito terá que definir se o sujeito que toca é ou não gótico), passamos a concluir que a letra é importante para definir a música gótica. Mas uma boa música gótica depende da letra?

Você ainda pensa que gótico ainda faz letra de desilusão? Think Again!

Mais um Rouxinol

Convenhamos, a maioria das letras de músicas góticas atualmente não são exemplos do melhor da poesia, que é algo comum na música popular em geral – salvo a brasileira. Diferentes do jeito brasileiro de fazer letra de música, as músicas góticas não carregam ambiguidade, algumas são tão diretas que provavelmente foram feitas apenas para acompanhar a letra, outras contam histórias também apenas para trazer (para os góticos) algum momento de diversão, tirando o sarro de alguma coisa (que é uma característica das letras góticas: Usar elementos da própria estética dark que temos para zoar com nós mesmo ou com alguma coisa, nem sempre criticando), ou falando de amor ou desamor, essas sim com (algum) esforço em serem profundas. Letras belas ou que traduzem isso são bandas como Paralysed Age, Bauhaus, The Cure, Killing Miranda, Murder At The Registry, Collide entre muitas outras. Outras, especialmente as atuais, tem uma letra que poderíamos chamar sem medo de aplicar idéias do pós-modernismo em suas letras, como o pessoal do Cinema Strange, Deadfly Ensemble e o Deadschovsky. Só abro um parênteses sobre isso ser válido somente falando do circuito Darkwave, Goth Rock, Death Rock e o EBM para góticos (BlutEngel, por exemplo), se abordamos o Industrial e o Neofolk, por exemplo, por serem uma outra estética que foi absorvida em algum momento por nossa cena, tratam de coisas diferentes. Como esses quatro estilos de música gótica são os mais conhecidos e preferidos pelo público, descrevi mais esses.

Indiferente a isso, uma boa letra faz uma música boa. Mesmo coisas tão estranhas para um ouvinte, como a Dig Up Her Bones do Misfits, só faz sentido por sua letra. Muitas músicas do já citado Paralysed Age e da banda japa Aural Vampire só fazem sentido e são ditas boas quando você ler a maldita tradução. Embora tenham hits melhores, boa parte das bandas de darkwave, etheral, neofolk e synthpop tem uma letra bonita e são essas que tocam nas baladas góticas de todo mundo. Embora nunca essas bandas estarão catalogadas como literaturas épicas, várias letras de músicas são lindas para um gótico (ou talvez, pessoas que se interessem por estéticas e valores próximos) que as escuta. Mesmo o mais tosco Psychobilly, se prestar a atenção na melodia, não faz sucesso pela melodia. Se assim fosse, Midnight Syndicate seria uma banda extremamente popular na cena gótica exatamente por ser uma banda instrumental, mas com um instrumental excelente, e as músicas mais famosas do BlutEngel seria as Angel’s Dust ao invés da Vampire Romance e Death In June e Dead Can Dance faria sucesso com suas músicas mais “new age”. Como copiamos quase tudo que faz sucesso lá fora e não inovamos em nada, não podemos afirmar ao menos no gótico que o vocal funciona como um outro instrumento e o climax das músicas é o único agitador de massas, porém ao menos lá fora, uma letra ruim não consegue manter uma banda por muito tempo (e o tempo nos setlists é o melhor medidor do sucesso da música). Bandas, inclusive nacionais, se reforçam para produzir uma letra correta e inteligente, ou ao menos divertida e engraçada. Pelos góticos dançarem e prestarem atenção na sonoridade ao invés de balançarem a cabeça, a letra faz muito mais sentido para nós que para quem gosta de riffs…

Só um comentário: Não vale mais falar mal de funk carioca se escuta bandas gótica, principais as de death rock e algumas de goth rock. O “Like my bone” do Alien Sex Fiend é muito parecido com o Dako é Bom, principalmente o sentido conotativo…

Mas eu nem entendo o que ele está falando…

Já isso é um pardal ou uma rolinha

Por tudo isso, defendo a tese que explica por que algumas cenas, em especial a de países subdesenvolvidos, são mais frágeis a modismos impostos pela mídia na nossa subcultura que nos outros: Nós não conseguimos receber os valores da cena, sua mensagem vinda de suas bandas através da música, porque não sabemos sua língua nativa. Por isso que muita gente aqui, quando para pra pensar o por que gótico não aceita o Gothic Metal mesmo bandas como o The Sentenced atual serem tão semelhantes ao Nox Interna e ao The Wake, por exemplo, mesmo sendo tão parecidas. Ao meu ver, por não temos, infelizmente, condição de entender a língua inglesa (ou alemã) com fluência, acabamos ficando muito vulneráveis a qualquer coisa de fora e podemos nos pegar ouvindo NFD como Hard Rock, por ser parecida com o The Cult (o mais pop, aquele que começou como Thrash Metal e virou HardRock), e só notar a diferença bem depois. Quem é hipócrita acaba parando de ouvir justamente porque, embora tenha gostado, elas tratam dos mesmos assuntos de maneira completamente diferentes. Cenas grandes em países desenvolvidos, como a alemã, consegue abordar vários estilos diferentes e as pessoas sabem o que é ou não gótico exatamente por ouvirem a música – e concordarem ou não com a mensagem dela. Talvez a cena alemã pode não ter sido um exemplo bom, exatamente por aquilo ser um samba do crioulo-doido, e esse pensamento meu ainda ter como falha eu só conhecer três cenas além da brasileira, sendo que as outras duas não citadas são anglofônicas (americana e britânica). A melodia é importante para nós, talvez mais que a letra, porque não somos capazes de entender prontamente o que nossos artistas querem dizer e ouvimos o vocal como um quarto instrumento, mas podem ter certeza que quando vocês entenderem a The Sparrows and the Nightingales, vocês passarão a gostar muito mais de nossas músicas.

Tradução da Letra do Wolfsheim

Os Pardais e os Rouxinóis

Quanto tempo você esta livre
Nesse mundo de ódio e cobiça?
Isto é oito ou oitenta?*
Vamos encontrar outro compromisso

E nosso futuro ainda permanece
Dançando nos holofotes
Onde está o líder que me levará?
Ainda estou esperando! Deixando a casa

E Deus está com você
Separando pardais de rouxinóis**
Vendo todo o tempo
Separando a água do fogo queimando…profundamente

Deixe uma luz acesa de noite para mim
Que eu possa achar você
Lembro quando nós éramos jovens
E imprudentes e curiosos

Agora você está escondendo de sua criança
Um novo dia está nascendo
Lembro que você se sentia viva…ás vezes

E Deus está com você
Separando crueldade e ternura
Vendo o tempo todo
Separando ficção da realidade

Fiquem em círculos, ande nas linhas…
Calmos ventos e calmos oceanos
Nenhum humano sobrevive no espetáculo
Tentar outro acordo de paz
Quem luta nessa sagrada guerra civil?
Um milhão de homens em uniformes
Onde está o líder que me levará?
Ainda estou esperando! Deixando a casa

E Deus está com você
Separando presente na nossa história
Vendo o tempo todo
Separando homens surdos dos primeiros ouvintes

Deixe uma luz acesa de noite para mim
Que eu possa achar você
Lembro quando nós éramos jovens
E imprudentes e curiosos

Agora você está escondendo de sua criança
Um novo dia está nascendo
Lembro que você se sentia viva…ás vezes

E Deus está com você
Separando crueldade e ternura
Vendo o tempo todo
Separando ficção da realidade

Fiquem em círculos, ande nas linhas…
Calmos ventos e calmos oceanos
Nenhum humano sobrevive no espetáculo
Tentar outro acordo de paz
Quem luta nessa sagrada guerra civil?
Um milhão de homens em uniformes
Onde está o líder que me levará?
Ainda estou esperando! Deixando a casa

E Deus está com você
Separando presente na nossa história
Vendo o tempo todo
Separando homens surdos dos primeiros ouvintes

Deixe uma luz acesa de noite para mim
Que eu possa achar você
Lembro quando nós éramos jovens
E imprudentes e curiosos

Agora você está escondendo de sua criança
Um novo dia está nascendo
Lembro que você se sentia viva…ás vezes

E Deus está com você
Separando soldados dos pescadores
Vendo o tempo todo
Separando navios de guerra das balsas…
Balsas…

* No original, o “It’s Black or its White” seria traduzido literalmente como “Isso é preto ou é branco”, contudo eu achei melhor traduzir pelo sentido conotativo da frase, que é apresentado no trecho que vocês ficarão lá em cima. E ah! A tradução não é minha autoria, apenas a adaptação.

** Aqui ele quis dizer que está extraindo o extraordinário do ordinário, o valioso do comum. Entendo que ele quis dizer que Deus está escolhendo as pessoas boas para o paraíso. Pardais teria mais uma alusão aos soldados, já que é um bichinho que está sempre “uniformizado” com a típica cor nas suas plumagens. Rouxinol já é algo mais colorido, que transmite a idéia de vida.

Comentários
  1. Nil disse:

    Gostei muito dos seus textos e de saber um pouco mais sobre a cultura gótica… A letra é maravilhosa, gostaria de ouvir e saber um pouco mais de tudo isso!! Se puder me indicar, enviar algo, agradeço imensamente!

    Abraço,

  2. Mortiza Harker disse:

    Belíssima letra, sempre procurei pesquisar as letras de músicas goticas e esse texto é mais um incentivo. A melodia é ótima, mas tão importante quanto (ou quem sabe mais) é a letra.

  3. GabyQueiroz disse:

    bem, gstei das palavras colocadas, não sou gotica, mas procuro avaliar textos diversos coma intenção de enriquecer meu vocabulario enfim adquirir informaçoes…Gostei do tema tratado!

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